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Monocultura de Saberes e a Agricultura no Brasil

Monocultura de Saberes e a Agricultura no Brasil

O Agro é Pop ou é Flop?

A Revolução Verde foi uma profunda mudança na agricultura, iniciada em países desenvolvidos na década de 1950 e que chegou ao Brasil nos anos 1990. Ela se caracterizou pela introdução de tecnologias como tratores, sementes geneticamente modificadas (OGMs) e o uso intensivo de fertilizantes e pesticidas. Embora tenha aumentado a produtividade agrícola em larga escala, esse modelo simplificou a produção no campo, gerando graves consequências sociais e ambientais.

Este modelo se impôs ao meio rural como um modo de produção único, uma forma de conhecimento agrícola que se pretende universal e que não tem como foco as famílias brasileiras. Em diversos países, especialistas e trabalhadores rurais vêm apontando os danos para o meio ambiente e a incapacidade do modelo em produzir uma diversidade de alimentos e produtos agrícolas.

Monocultura e a "Revolução Verde"

Em linhas gerais, a monocultura se define por uma cultura agrícola de uma única espécie, realizada geralmente em grandes extensões de terra de poucos produtores (latifúndios). Esse tipo de produção se massificou durante a colonização (entre os séculos XV e XIX), em que o modelo de produção conhecido como plantation utilizava mão-de-obra escravizada, com foco na exportação. No Brasil, os principais ciclos agrícolas desse modelo foram a produção da cana-de-açúcar, tabaco e café.

Já no século XX, a partir de 1960, a Europa e os Estados Unidos realizaram um amplo empreendimento que visava aumentar a produção agrícola, por meio da mecanização, uso intensivo de insumos industriais (fertilizantes e pesticidas) e diminuição da mão-de-obra, que ficou conhecido como Revolução Verde. No Brasil, essa tendência chegou na década de 1990, estabelecendo recordes de produção e exportação de soja, algodão e milho. No entanto, os aparentes benefícios desse modelo são relativos, principalmente se olharmos de um ponto de vista da distribuição de renda e da sustentabilidade do meio-ambiente.

Agrotóxicos e suas Consequências

Um dos problemas principais da monocultura é a suscetibilidade às pragas. Por exemplo, a espécie lagarta-do-cartucho, considerada uma das principais pragas do cultivo de milho, pode se reproduzir rapidamente, pela abundância e proximidade entre as plantas, acarretando em grande queda de produtividade. Assim, para evitar esse problema são utilizados os praguicidas, também conhecidos como agrotóxicos, pesticidas ou defensivos agrícolas.

Se liga nisso: O Glifosato

O agrotóxico mais popular do mundo é o glifosato, herbicida sistêmico de amplo espectro, comercializado com o nome de Roundup®, desenvolvido e comercializado pela companhia multinacional Monsanto, propriedade da química e farmacêutica alemã Bayer. Sua ação inibe a síntese de aminoácidos essenciais nas plantas, provocando a morte da mesma. A fórmula geral dos organofosforados, classe à qual o glifosato pertence, foi desenvolvida em 1936 com o objetivo de criar armas químicas no período nazista na Alemanha.

Fórmula química do glifosato

Figura 1: Fórmula química do glifosato.

Contudo, esses produtos químicos nem sempre são seletivos, impactando negativamente toda a vida no campo, tanto as plantas de cultivo, quanto os microrganismos do solo e outras espécies de animais e plantas, assim como a vida humana.

Para a saúde pública, a exposição aos agrotóxicos – por meio do contato direto durante o cultivo ou pelas chuvas que carregam os defensivos para os rios e lençóis freáticos – pode ter queda significativa da sua população, desequilibrando o ecossistema e provocando diminuição da biodiversidade.

O que são a bioacumulação e a biomagnificação?

Bioacumulação é o processo de absorção de substâncias e compostos químicos pelos seres vivos. Já a biomagnificação (ou magnificação trófica) diz respeito ao processo gradual de concentração de substâncias tóxicas nos predadores do topo da cadeia alimentar, que ocupam posições mais altas nos níveis tróficos.

Organismos Geneticamente Modificados (OGMs)

Com o uso da biotecnologia, a indústria agroquímica desenvolveu os OGMs para aumentar a capacidade de exposição aos agrotóxicos. Os OGMs são organismos alterados geneticamente para promover qualidades específicas e desejadas, como resistência a herbicidas. Não podemos confundir OGMs com Melhoramento Genético, pois este último utiliza apenas seleção e cruzamento, uma prática humana milenar.

Um exemplo é a semente transgênica patenteada da soja Roundup Ready®, criada para resistir ao efeito do glifosato, permitindo o uso extensivo contra as ervas daninhas sem prejudicar o crescimento da soja.

Trabalhador rural usando equipamento de proteção individual (EPI) em lavoura

Figura 2: Equipamento de Proteção Individual (EPI) para manejo de agrotóxicos.

Desde 2003, com o decreto 4.680, é obrigatória a presença do símbolo “T” nos alimentos que contenham pelo menos 1% de transgênicos em sua composição para indicar aos consumidores.

Consequências da Monocultura para o Brasil

O modelo da Revolução Verde produziu um aumento da produtividade, mas com consequências negativas. Houve um alto investimento, boa parte financiado pelo Estado, que beneficiou principalmente grandes latifundiários. Isso provocou o aumento do êxodo rural e a concentração de terras.

Além disso, a falta de plantas com raízes em diferentes profundidades provoca a erosão do solo, enquanto que a ausência de copas e coberturas do solo faz com que o sol mate boa parte dos microrganismos das primeiras camadas do solo, tornando-o pobre em nutrientes e muito duro.

Do ponto de vista da saúde pública, instituições como a Organização Mundial de Saúde (OMS) já alertaram a sociedade para a associação entre uso de pesticidas e aumentos de casos de câncer e outras doenças. Um levantamento do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água (Sisagua), do Ministério da Saúde, demonstrou que a água que consumimos em pelo menos 2.300 cidades do Brasil contém uma mistura de pelo menos 27 agrotóxicos diferentes.

Mapa da concentração e número de agrotóxicos encontrados na água das cidades brasileiras.

Figura 3: Mapa da concentração e número de agrotóxicos encontrados na água das cidades brasileiras.

Multiculturalismo como Saída

O modelo agrícola da Revolução Verde tem sido contestado por especialistas e trabalhadores rurais. A imposição de monoculturas de cultivos com foco na exportação representa uma visão única de olhar para a agricultura, tal qual foi a imposição cultural implementada pelo colonialismo.

O multiculturalismo seria, em termos gerais, “a vontade e o desejo de diversas e múltiplas culturas étnicas de viverem juntas sem exploração e subordinação de outras”. A perspectiva multicultural para o campo pode nos ajudar a combinar produção de alimentos com preservação da natureza, biodiversidade, distribuição de renda, geração de empregos e qualidade de vida.

Em outros tipos de produção, como por exemplo a agroecologia, é valorizada a associação entre produção diversificada e proteção da biodiversidade. Os conhecimentos sobre as plantas de cultivo, plantas nativas, solo, estações e os ciclos da natureza são utilizados para promover sinergia entre esses diferentes elementos e possibilitar uma produção abundante, ecologicamente e socialmente responsável.

Plano de Aula: Monocultura de saberes e a agricultura no Brasil


Este plano de aula aborda a Revolução Verde, o modelo de monocultura, o uso de transgênicos e agrotóxicos, e as suas consequências sociais e ambientais. A proposta é oferecer aos estudantes uma visão crítica sobre as narrativas em disputa sobre a agricultura no Brasil.

Aulas


A seguir estão propostas de aulas estruturadas para três encontros. Utilize as abas abaixo para alternar entre cada encontro.

AULA 1 – Revolução Verde e Transgênicos

Objetivos

  • Conceituar Revolução Verde, monocultura e transgênicos.
  • Diferenciar OGMs de melhoramento genético.
  • Identificar a presença de transgênicos no cotidiano dos alunos.

Recursos

Atividades

  1. Início: Pergunte aos estudantes se conhecem o símbolo dos transgênicos e o que sabem sobre OGMs.
  2. Desenvolvimento: Explique os conceitos-chave e a dinâmica da Revolução Verde. Use o vídeo para aprofundar o debate sobre o tema.
  3. Encerramento: Explique o decreto 4.680 de 2003 e a obrigatoriedade do símbolo "T" nos alimentos. Peça como atividade individual que os estudantes procurem este símbolo em casa.

AULA 2 – Agrotóxicos e Impacto Ambiental

Objetivos

  • Compreender os riscos associados ao uso de agrotóxicos para a saúde e o meio ambiente.
  • Discutir o fenômeno da biomagnificação.

Recursos

Atividades

  1. Início: Realize uma conversa sobre os alimentos que os alunos encontraram em casa com o símbolo de transgênico.
  2. Desenvolvimento: Divida a turma em grupos e distribua os temas de discussão: riscos para trabalhadores rurais, para o meio ambiente e para a saúde humana.
  3. Encerramento: Cada grupo deve apresentar suas descobertas, e a turma elabora em conjunto uma lista de recomendações para o governo, propondo soluções para os problemas levantados.

AULA 3 – Agricultura Alternativa e Multiculturalismo

Objetivos

  • Apresentar e discutir modelos agrícolas alternativos como a agroecologia.
  • Conectar a produção de alimentos com os princípios do multiculturalismo e a sustentabilidade.

Recursos

Atividades

  1. Início: Introduza o conceito de multiculturalismo e sua aplicação no contexto agrícola, em oposição à "monocultura de saberes".
  2. Desenvolvimento: Apresente o modelo da agroecologia e seus benefícios. Em grupos, os alunos criam maquetes ou desenhos de uma roça agroflorestal, indicando as plantas e suas funções.
  3. Encerramento: Cada grupo compartilha sua maquete e reflete sobre como a ciência pode dialogar com os conhecimentos ancestrais para um futuro mais sustentável.