Mulheres na Ciência
Quando pensamos em ciência, nomes como Albert Einstein ou Isaac Newton costumam aparecer primeiro. Entretanto, há uma rica história de mulheres que desafiaram as barreiras impostas pela sociedade e contribuíram de maneira decisiva para o avanço do conhecimento. Eu, autora deste texto, também sou uma cientista e vejo todos os dias como o protagonismo feminino vem crescendo.
De acordo com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), apenas em 2019 13 419 pesquisadoras concluíram seus doutorados no Brasil. Esse número mostra que somos muitas – apesar de nem sempre termos o devido reconhecimento.
Você sabia?
Mais de metade dos estudantes universitários no Brasil são mulheres, mas a proporção diminui drasticamente em áreas como física e engenharia. Incentivar meninas a permanecerem na ciência é fundamental para transformar essa realidade.
Durante séculos, o acesso à educação foi um privilégio reservado a poucos. Na maior parte do mundo ocidental, as mulheres eram confinadas ao ambiente doméstico e eram desencorajadas a ler, escrever ou estudar. Essa ausência forçada de oportunidades levou ao apagamento de muitos saberes produzidos por elas.
O termo epistemicídio descreve justamente a destruição de modos de conhecimento que não se encaixam nas visões hegemônicas. Mulheres e povos indígenas foram silenciados, e seus sistemas de cura, agricultura e filosofia foram considerados inferiores ou até proibidos. Esse apagamento histórico explica por que tantas cientistas permanecem invisíveis hoje.
Termo‑chave: Epistemicídio
Epistemicídio é o assassinato ou a supressão de formas de conhecimento de grupos marginalizados, normalmente em benefício das elites coloniais. Reconhecer esse processo é passo crucial para recuperar histórias apagadas.
Muito antes da ciência moderna, as mulheres detinham conhecimentos sobre plantas, curativos e rituais de cura. No Egito, Mesopotâmia e diversas culturas ancestrais, eram elas que diagnosticavam gestações, tratavam feridas e realizavam cesáreas. Esses saberes foram considerados "feitiçaria" por quem não os compreendia, levando à perseguição de muitas curandeiras e parteiras.
Na Idade Média, a chamada feitiçaria era muitas vezes a única forma de cuidado à saúde acessível à população. Mulheres sábias utilizavam ervas e rituais para aliviar dores, reduzir inflamações e acompanhar partos. Embora eficazes, suas práticas eram marginalizadas por não seguirem os moldes da medicina oficial, então dominada por homens europeus.
Deuses e deusas simbolizavam saberes do mundo. Ísis, no Egito, era reverenciada como guardiã da escrita, da medicina e da agricultura. Já Atena e Deméter, na Grécia, representavam o arado puxado por bois, o cultivo da oliveira e a fertilidade do solo. Esses mitos refletem a forte participação feminina na criação de técnicas agrícolas essenciais para a sobrevivência.
8000–4000 a.C. – Mulheres das regiões dos rios Tigre e Eufrates descobrem a cevada e o linho; na China, aprimoram o cultivo do arroz; nas Américas, desenvolvem o plantio de batatas e milho.
1200 a.C. – Tappouti, na Assíria, torna‑se a primeira química conhecida e dirige a fábrica de perfumes do palácio real da Babilônia.
1500 a.C. – A rainha Hatchepsout, no Egito, organiza expedições à Somália em busca de novas plantas medicinais e promove conhecimentos ginecológicos avançados.
2019 – Segundo a CAPES, 13 419 mulheres defendem doutorado no Brasil, evidenciando o crescimento da presença feminina na ciência.
2020 – A pesquisadora brasileira Jaqueline Goes de Jesus integra a equipe que mapeia, em apenas 48 horas, os primeiros genomas do novo coronavírus (SARS‑CoV‑2) detectados no país.
Ao longo da história, mulheres extraordinárias desafiaram expectativas e contribuíram com avanços que mudaram o mundo. Conheça algumas delas:
Tappouti: Química assíria que viveu por volta de 1200 a.C. e dirigiu a fábrica de perfumes da Babilônia. Inventou técnicas de destilação e filtragem, misturando óleos e aromáticos para produzir fragrâncias requintadas.
Hatchepsout: Uma das poucas mulheres faraós do Egito. Além de governar com sabedoria, promoveu expedições botânicas e fomentou práticas ginecológicas, realizando cesáreas e tratando câncer de mama milênios antes da medicina moderna.
Jaqueline Goes de Jesus: Bióloga e pesquisadora brasileira conhecida por integrar a equipe que sequenciou os primeiros genomas do SARS‑CoV‑2 no Brasil em 2020. Seu trabalho em tempo recorde permitiu acompanhar mutações do vírus e fundamentou políticas de saúde pública.
Nas comunidades indígenas amazônicas, as mulheres desempenham papel central no plantio, na colheita e na conservação das sementes. A roça tradicional – um espaço agrícola manejado em harmonia com a floresta – é verdadeira sala de aula viva, onde se combinam espécies com diferentes alturas e necessidades, criando sinergia entre culturas.
Inteligência Agrodinâmica
Uma prática comum é a consorciação de culturas: mandioca, abacaxi, milho, cará, fava, amendoim e frutas convivem no mesmo espaço. Como relatou Elizângela da Silva Costa, do povo Baré, as folhas do abacaxi funcionam como “vasos de água” naturais, irrigando a roça sem necessidade de sistemas artificiais.
Após 2 a 8 anos de uso, a roça entra em pousio, um período de descanso que dura entre 10 e 20 anos. Esse tempo permite que o solo e a floresta se regenerem. Em contraste, o agronegócio esgota a terra até a exaustão, provocando erosão, assoreamento de rios e demandando a exploração de novas áreas, sem se preocupar com a sustentabilidade.
As mulheres sempre estiveram presentes na construção da ciência, embora por muito tempo suas histórias tenham sido ofuscadas. Da descoberta de plantas cultiváveis e práticas medicinais à pesquisa de ponta em genética, sua contribuição é fundamental para o progresso da humanidade.
Pense sobre isso:
Quando lembrarmos de grandes descobertas, que tal trazer à mente também aquelas feitas por mulheres? Valorizar essas trajetórias inspira meninas a acreditarem que a ciência também é seu lugar.
Ao divulgar e valorizar essas narrativas, criamos uma ciência mais diversa, justa e inovadora. O futuro da pesquisa precisa das ideias e da coragem de todas e todos.
Assista a um vídeo que destaca conquistas de mulheres cientistas ao longo da história.
Introdução
Este plano de aula explora a participação das mulheres na ciência ao longo da história, desde as primeiras descobertas agrícolas até as pesquisas genômicas mais recentes. A proposta é proporcionar aos estudantes uma visão crítica sobre como os saberes femininos foram apagados e como esses conhecimentos podem inspirar novas gerações.
Linha do Tempo
Os marcos abaixo destacam contribuições femininas em diferentes períodos históricos.
Pré‑história
Mulheres do Tigre e Eufrates, da China e das Américas desenvolvem técnicas agrícolas para cevada, arroz, milho e batatas (8000–4000 a.C.).
Tappouti
A primeira química conhecida, que dirigiu a fábrica de perfumes da Babilônia por volta de 1200 a.C., desenvolvendo técnicas de destilação.
Hatchepsout
Rainha-médica do Egito (c. 1500 a.C.) que organizou expedições botânicas e promoveu práticas ginecológicas avançadas.
Doutoras
Segundo a CAPES, 13 419 mulheres concluíram o doutorado no Brasil em 2019, mostrando o avanço da participação feminina na pesquisa.
Jaqueline Goes
A biomédica brasileira integrou a equipe que sequenciou o genoma do SARS‑CoV‑2 em tempo recorde, apenas 48 horas após o primeiro caso no país.
Competências e Habilidades (BNCC)
Este plano está alinhado às competências específicas de Ciências da Natureza e às competências gerais da BNCC. As atividades propostas incentivam o pensamento crítico, a valorização da diversidade e a investigação científica.
Competências Específicas
- EM13CN05: Analisar, em diferentes contextos, como os conhecimentos científicos e tecnológicos resultam de construções humanas ao longo da história.
- EM13CHS104: Compreender as relações de poder e desigualdades de gênero na produção científica e tecnológica.
- CEMAT01: Utilizar estratégias e conceitos matemáticos para interpretar situações em diversos contextos, destacando os saberes agrícolas tradicionais.
Competências Gerais
- 1. Valorizar e fruir as diversas manifestações científicas e culturais como patrimônio social e cultural da humanidade.
- 2. Exercitar a curiosidade intelectual, formulando perguntas e investigando fenômenos a partir da observação.
- 8. Conhecer e respeitar as diferentes culturas e saberes, promovendo a empatia e o diálogo.
Aulas
A seguir estão propostas de aulas estruturadas. Utilize as abas abaixo para alternar entre cada encontro. Cada aula contém objetivos, etapas de condução e recursos multimídia.
AULA 1 – História e Desigualdade
Fonte: Wikimedia Commons
Objetivo
Compreender as barreiras históricas impostas às mulheres na ciência e discutir o conceito de epistemicídio.
Início
Proponha aos estudantes a reflexão: “Quem é a primeira pessoa que vem à mente quando pensamos em ciência?” Em seguida, apresente a linha do tempo e os marcos históricos.
Desenvolvimento
- Divida a turma em grupos e distribua textos curtos sobre o acesso à educação, epistemicídio e estereótipos de gênero.
- Cada grupo deve identificar as principais barreiras enfrentadas pelas mulheres e elaborar um cartaz resumindo suas conclusões.
- Promova uma exposição na sala com os cartazes e incentive perguntas entre os grupos.
Fechamento
Realize uma roda de conversa: Quais fatores ainda dificultam a participação das mulheres na ciência? Como cada um pode contribuir para mudar essa realidade?
AULA 2 – Pioneiras da Antiguidade
Fonte: Wikimedia Commons
Objetivo
Conhecer mulheres pioneiras do mundo antigo e reconhecer sua importância para a ciência e para a sociedade.
Início
Apresente as biografias de Tappouti e Hatchepsout com apoio de cards ilustrados. Explique que muitas descobertas foram feitas por mulheres, mesmo sem o reconhecimento oficial.
Desenvolvimento
- Organize estações de pesquisa sobre Tappouti, Hatchepsout e as divindades femininas vinculadas à agricultura (Ísis, Atena, Deméter).
- Cada grupo prepara uma apresentação curta com as principais contribuições de sua personagem ou mito.
- Após as apresentações, promova um debate sobre por que esses nomes foram esquecidos na historiografia tradicional.
Fechamento
Peça aos alunos que criem uma linha do tempo ilustrada em papel, incluindo os eventos pesquisados e espaço para adicionar futuras descobertas de mulheres.
AULA 3 – Cientistas Contemporâneas
Fonte: Wikimedia Commons
Objetivo
Investigar as conquistas de cientistas mulheres no século XX e XXI e refletir sobre os desafios atuais.
Início
Exiba um vídeo curto sobre mulheres que mudaram o mundo da ciência. Utilize-o como ponto de partida para destacar a trajetória da biomédica brasileira Jaqueline Goes de Jesus.
Desenvolvimento
- Forme duplas e proponha que cada dupla pesquise uma cientista contemporânea (brasileira ou internacional) e prepare uma mini‑biografia com foto e principais feitos.
- Disponibilize uma cartolina ou mural digital para que as biografias sejam expostas para a turma.
Fechamento
Realize um quiz com perguntas sobre as cientistas apresentadas. Aproveite para discutir sobre a representatividade e os desafios enfrentados por mulheres negras, indígenas e de outras minorias na ciência atual.
AULA 4 – Sustentabilidade e Saberes Tradicionais
Fonte: Wikimedia Commons
Objetivo
Relacionar os conhecimentos científicos com as práticas agrícolas indígenas e discutir modelos de sustentabilidade em oposição ao agronegócio.
Início
Introduza o conceito de roça tradicional e explique como a consorciação e a rotação de culturas promovem o equilíbrio do ecossistema.
Desenvolvimento
- Solicite aos estudantes que, em grupos, criem maquetes ou desenhos de uma roça agroflorestal, indicando as diferentes plantas cultivadas e suas funções.
- Apresente dados comparativos entre a produtividade das roças tradicionais e a degradação causada pela monocultura do agronegócio.
- Promova um debate sobre como os conhecimentos tradicionais podem contribuir para uma ciência mais sustentável.
Fechamento
Cada grupo compartilha sua maquete e explica como suas escolhas refletem princípios de sustentabilidade e respeito aos saberes ancestrais. Finalize com reflexões sobre como a ciência pode dialogar com a sabedoria popular.
Referências e Materiais de Apoio
- CAPES. Indicadores da pós‑graduação brasileira. Disponível em: https://www.gov.br/capes.
- SARTORI, Luciana. Mulheres na ciência: uma história contada pela metade. São Paulo: Editora Acadêmica, 2019.
- SBPC. Meninas e Mulheres na Ciência. Disponível em: https://sbpcnet.org.br.
- D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
Para vídeos e recursos digitais adicionais, sugerimos explorar a playlist “Mulheres na Ciência” no YouTube e os materiais da ONU sobre o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.