PODEMOS USAR O HIP HOP PARA EXPLICAR A FÍSICA?

Explicar o mundo a partir de fórmulas e números faz com que tenhamos dificuldades em justamente perceber a aplicação no nosso cotidiano. Se de fato não conseguimos ver como essas coisas se materializam, achamos que não servem para nada. Além disso, é muito comum ouvirmos que tanto a Física quanto a Matemática são pura “decoreba”, tanto que em 2012, o jornal Cruzeiro do Sul fez uma pesquisa sobre as disciplinas de Ensino Médio e o resultado foi que as matérias que geravam mais dúvidas eram Física (35%) e Matemática (30%). Então, bora reverter este placar? Vamos aprender, de modo diferente, um conceito da física chamado Efeito Doppler? Tenho certeza que você vai curtir porque iremos utilizar o Hip Hop para ganharmos este jogo!

O que é efeito doppler?E como o Hip-hop ajuda a entender o efeito doppler?

Trata-se de um fenômeno físico observado nas ondas quando emitidas ou refletidas por um objeto que está em movimento em relação ao observador. Ele demonstra como uma pessoa ouve o som de maneira diferente quando ela, ou o que está produzindo este som, está em movimento. Normalmente, usamos o Efeito Doppler nos estudos sobre ondas, óptica e sons. Graças à descoberta do mesmo, foi possível realizar pesquisa sobre a velocidade das galáxias, pois a luz é uma onda eletromagnética.

E como o Hip-hop ajuda a entender o efeito doppler?

O Hip Hop é uma ferramenta pedagógica importante em sala de aula porque explica o contexto social de vários lugares do mundo, principalmente as experiências das pessoas negras e pobres que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos e também porque é capaz de aumentar as possibilidades de aprendizagem do Efeito Doppler, uma vez que muitos jovens experienciam a aproximação ou afastamento deste som. Tasha e Tracie, irmãs gêmeas, cantoras, compositoras e estilistas, demonstram exatamente isso na música Salve, lançada por elas e pela produtora Ceia em 2020:

A letra aborda questões como mobilidade, ascensão social, batalhar muito, acreditar em si e até sobre sexo. Contudo, o nosso foco aqui é o que está no refrão:

“Contando os placo que hoje eu vou dе pião Passei na nave a milhão, meu som em slowmotion 

É que a vida mudou, hein, você não botou fé Ainda bem que eu corri, né

Ainda bem que eu não te ouvi, né (é, né)”

No verso “Passei na nave a milhão, meu som em slowmotion” temos uma situação do contexto da música parecida com o que ocorre no Efeito Doppler do mundo real.  Tasha e Tracie estão dando uma volta de carro em alta velocidade e escutando música em volume alto. Quando elas passam com a nave delas, as pessoas que estão do lado de fora do carro ouvem a música em slowmotion, ou seja, mais lenta do que de fato é. Nesse sentido, as pessoas de fora da nave ouvem a música de modo diferente de quem está dentro. Sim, é exatamente isso! De fora da nave de Tasha e Tracie, a música é mais lenta do que de fato é porque a velocidade interferiu e distorceu a percepção das pessoas.

No nosso mundo real, a música de fora também seria afetada pela velocidade e seria ouvida em uma frequência diferente daquela ouvida por quem está dentro de um carro. O mesmo fenômeno acontece quando você ouve a sirene de uma ambulância se aproximando ou se afastando de você: o som vai ficando mais agudo (frequência mais alta) conforme a ambulância vai se aproximando, mais grave (frequência mais baixa) conforme ela vai se afastando e quem está dentro dela não nota nenhuma mudança no tom da sirene. Assista ao vídeo para perceber:

Nos dois casos – o da música da Tasha e Tracie e o do mundo real – é a alta velocidade que faz com que as pessoas de fora ouçam uma mesma música ou uma sirene de forma diferente de quem está dentro de uma nave/de um carro.

Quantas vezes não presenciamos o som alto dentro de carros se aproximando ou se afastando de nós? Pois é! O Hip Hop pode ser tanto uma prática pedagógica importante para entender os diversos contextos sociais de estudantes que o escutam e lidam com as realidades retratadas nele, quanto um percurso alternativo para o entendimento da Física. Desse modo, o componente curricular, geralmente conhecido como monstro de sete cabeças, pode ser desmistificado e uma aprendizagem efetiva pode ocorrer através de um novo objeto de ensino.